OS MOTIVOS DA DESVALORIZAÇÃO DAS POLÍCIAS

Dentre os presidenciáveis em 2018 é possível constatar que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) tem usado como sua principal bandeira de campanha a segurança pública, sempre com destaque para o bom desempenho das polícias paulistas e assim deverá permanecer até sua desincompatibilização do governo, em abril, quando deve deixar o cargo para iniciar oficialmente sua campanha à Presidência da República.

Diante desse quadro creio ser pertinente a afirmação de que esse é o momento propicio para se cobrar dele e o seu sucessor um real reconhecimento pelo muito que a Polícia Paulista tem oferecido e o quase nada que tem recebido de retorno não apenas da população, mas principalmente do Estado, que reconhece o seu imprescindível valor, mas esquece que seus integrantes não podem sobreviver apenas de elogios.

Surge então o questionamento sobre a forma, ou formas, mais eficientes de se realizar as cobranças desses efetivos reconhecimentos: É evidente que as necessárias e imprescindíveis reivindicações para o aprimoramento e valorização das instituições responsáveis pela segurança pública do Estado devem ser encaminhadas pelas lideranças classistas que representam cada segmento dessas instituições. Entretanto, nesse momento surge o maior dos dilemas: Quem de fato atualmente exerce a representação classista das polícias paulistas? Enquanto a Policia Civil, desde a Constituição de 1988 passou a contar com Sindicatos representativos das classes que compõem a Instituição, a Polícia Militar até os dias atuais possui apenas Associações de Classes, as quais exercem muito mais um trabalho de Assistência Social.  

Em especial no caso da Polícia Civil Paulista, esta vive há vários anos uma aflitiva situação de desmonte. Com um efetivo muito abaixo do mínimo razoável e a qualidade de investigação e de atendimento à população cada vez mais precário. Isso sem considerar que muitas delegacias estão sucateadas, sem condições de trabalho. Com 1,8 mil aposentadorias pedidas só no ano de 2017, outras 3,2 mil que serão solicitadas e sem a necessária reposição dos quadros, tudo isso somado a uma reposição salarial de apenas 4% depois de quatro anos sem qualquer reajuste, a tendência é piorar.

Dos 645 municípios paulistas, 256 não têm delegado titular. No interior, delegados são responsáveis por até quatro municípios simultaneamente e convivem com a falta de policiais de todas as demais carreiras. Na capital, dos 93 distritos policiais, menos de um terço (27) funciona 24 horas por dia, quando até o ano de 2009 todos atendiam ininterruptamente, e grupos de elite especializados como GOE, GER e GARRA tiveram seus efetivos reduzidos. Portanto, com um déficit segundo os Sindicatos das categorias afirmam, com base em dados publicados no Diário Oficial do Estado, de pelo menos 13.913 policiais civis em São Paulo, ou cerca de 30% do efetivo fixado, esses índices revelam, portanto,  o “sucateamento” da Polícia Civil de São Paulo.

Que São Paulo tem uma das melhores seguranças públicas do País — e isso quer dizer, também, uma das melhores polícias, apesar de tantos problemas –  creio que a grande maioria concorda. Acredito, diante disso,  que essa seja a principal  razão para que os bons policiais, a larga maioria, não se devam deixar liderar por irresponsáveis que não respeitam a história dessas centenárias instituições e as mais eficientes do País. E que aprendam a reconhecer  nos seus representantes classistas, reais lideres e não apenas manipuladores de suas justas causas, como tem-se visto cada vez mais nos dias atuais.

Esse é, pois, o momento  ideal  para que as classes policiais do Estado de São Paulo, se unam em torno de suas entidades classistas e cobrem efetivo trabalho conjunto dessas lideranças e, principalmente, substituam aquelas que não desejarem cumprir o verdadeiro papel para o qual foram escolhidas e eleitas pela categoria. Não é mais possível subestimar a complexidade da atividade policial, bem como seus integrantes, pois o policial não pode  mais ser considerado como  um mero integrante da  vala comum do serviço público estadual, pois no seu trabalho que deve receber maior respeito e consequente reconhecimento da população e do Estado está inserido múltiplas atividades funcionais de diversos segmentos profissionais, como o direito, a psicologia,  a assistência social, pedagogia, medicina, administração, e muitos outros profissionais inseridos nas atividades de Polícia. Considerar todas essas peculiaridades, portanto, é importante não só para quem olha de fora a profissão policial, mas também para os próprios policiais que devem se preocupar com as mais variadas especializações profissionais que envolvem os relacionamentos humanos, com vistas a  entender os recursos básicos que cada uma dessas áreas tem a oferecer é muito importante para o desempenho do trabalho policial com excelência e sua consequente valorização.

Portanto, acredito que esse seja também  o momento ideal para todos fazerem o MEA MÁXIMA CULPA, ou seja: O policial que não soube eleger seus reais representantes classistas; aqueles representantes classistas que não souberam atrair para si a atenção e a confiança dos seus representados; aqueles policiais que se acomodaram numa situação de apatia e na crença de que nenhuma luta vale a pena; e finalmente o Estado, cujos dirigentes sempre consideraram, por falta de visão e muitas vezes por absoluta má-fé, a segurança pública apenas como moeda de troca eleitoral. Vamos, pois, reverter esse quadro antes que a reputação de toda uma categoria seja literalmente atirada ao lixo pelo Crime Organizado?

Por Silvia Salles

 

 

 

FacebookTwitterGoogle+WhatsAppCompartilhar